A Marta é a fundadora do projeto Mercado de Trocas. Através desta pequena entrevista fica a saber como tudo começou.

Há muito tempo que compras roupa em segunda mão, que participas em feiras de velharias e que tens um belo olhinho para escolher peças de roupa, decoração, etc. Mas como surgiu a ideia de organizar o Mercado de Trocas?  Isto era algo que sempre idealizaste fazer quando visitavas feiras ou foi uma ideia que surgiu de repente?

Tenho origens algarvias mas durante 3 anos vivi em Lisboa. Foi aqui que deparei-me com o primeiro Mercado de Trocas, quer dizer, já tinha participado em Mercados de Trocas no Algarve pontuais mas fazíamos trocas diretas, em Lisboa a regra era outra: as peças estavam expostas para que escolhesses. Esta última forma parece-me mais viável e justa, uma vez que a Maria pode querer umas calças minhas mas eu não gosto/preciso de nada do que a Maria tem para trocar, então a troca não acontece. O primeiro mercado de trocas em Lisboa que participei foi organizado pela Fast Revolution. Estava tudo organizado por tipos de roupa, o ambiente era espetacular e todo o conceito de levares o que não precisas mais para trocar por algo que necessitas. Fui de imediato perguntar como poderia inscrever-me para ser voluntária. Mas nunca aconteceu… até voltar a morar no Algarve.


Em que momento decidiste e pensaste para ti mesma “Hoje é o dia. Vou já organizar um Mercado de Trocas!”? O que contribuiu para avançares para esse projeto? Que necessidade viste nesse momento?


Tinha voltado para o Algarve há um ano quando estava a acontecer uma feira vegan no átrio do 8100 café, um café muito bonito e acolhedor no meio do parque municipal de Loulé. Depois de 10 minutos nessa feira disse para mim mesma “A Green Vibe vai organizar um Mercado de Trocas aqui”. Era o sítio perfeito, precisamente aquele ambiente de boas vibes dos mercados de trocas. No Inverno existe muito pouca oferta de eventos e atividades no Algarve. Além disso percebi logo que os Mercados de Trocas são uma necessidade no seio da comunidade. Como já tinha iniciado o projeto da Green Vibe, em que incentivamos à redução do desperdício que fazemos, era o evento ideal, porque ao trocarmos roupa estamos a reutilizar a mesma e assim não é necessário produzir novas peças. 


Existe algum mercado ou organização do género em que te tenhas inspirado para organizares um Mercado de trocas? É sabido que já visitaste vários países onde há feiras do género e quando ias a essas feiras, sentias que poderias fazer o mesmo em Portugal?


Por acaso de trocas nunca fui a nenhuma internacionalmente, mas as Feiras de Bagageira sempre fizeram parte dos meus roteiros de viajante. Aqui há dinheiro envolvido, a magia dos mercados de trocas é que são gratuitos. Inspirei-me totalmente no mercado de trocas organizado pela Fashion Revolution, depois desse fui a mais dois ou três em Lisboa, organizados por outras entidades. A única coisa que achava que estava ali a faltar seria a continuidade, então quando pensei em organizar idealizei logo como sendo um evento mensal, à mesma hora, no mesmo dia, no mesmo local. Assim as pessoas vão-se habituando e chamam outras tantas pessoas para virem também. 


O que foi mais difícil quando organizaste o primeiro Mercado de Trocas? Foi arranjar local, roupa, voluntários?


A obtenção do espaço foi instantâneo, já sabia que os donos do 8100 Café são pessoas criativas e mente aberta, aceitaram de imediato. O mais difícil foi arranjar expositores de roupa, pois só tínhamos dois das voluntárias. Aos poucos fomos comprando expositores com o dinheiro dos donativos. Cruzetas foram-nos cedidas das lojas locais e a roupa foram os voluntários que trouxeram, tanto sua roupa como dos amigos e familiares. Sim, é mesmo amor à camisola, andamos a pedinchar roupa a toda a gente, mas a verdade é que as pessoas que doam roupa ficam super contentes de ficar livres daquelas peças, ao mesmo tempo que vai para uma causa que trabalha na base da transparência e para/com a comunidade.


O Mercado de Trocas já fez um ano e já existe em algumas localidades do Algarve e em vias de começar em outras regiões do país. São as pessoas que te procuram para começarem a organizar os mercados ou és tu que conheces pessoas dessas zonas e tentas convence-las a organizar?


Admito que há dos dois ? No caso de Olhão e Albufeira partiu das voluntárias perguntar como poderiam iniciar um mercado na sua localidade e claro, nós apoiamos em tudo o que é necessário, inclusive estar presente no primeiro para garantir que está tudo nos conformes. O de Faro foi engraçado! Conheci a Milene e a Teresa como participantes no Mercado de Trocas de Olhão. Senti uma conexão reciproca, percebi que eram moças ativas e dinâmicas e perguntei: “Onde moram?” Quando me disseram Faro dei o meu melhor para as convencer a fazerem um eheh. A nossa capital tinha de ter um mercado de trocas! Estamos a expandir para fora do Algarve. Um dia esperamos ter Mercados de Trocas em todas as localidades do país ? 


Qual tem sido a aceitação por parte de quem vai aos mercados para fazer trocas? É positivo, negativo? Sentes que os hábitos estão a mudar e há cada vez mais procura por estas iniciativas? As pessoas estão a tomar consciência?


Muito positivo! De vez em quando há uma reclamação ou outra mas são tudo opiniões bem fundamentadas e por isso tentamos sempre melhorar. As pessoas que vão a este tipo de mercado já usam roupa em segunda mão, ou então estão a descobrir este mundo agora. Ficamos tão contentes quando os participantes nos agradecem imenso por organizarmos, que encontraram peças magníficas. Cálculo que nem toda a gente tem a perceção da reutilização e como este evento é de cariz social mas também ambiental. Mas depois há ali participantes que partilham as mudanças ecológicas que têm feito, leis mais verdes doutros país que poderiam ser implementadas em Portugal, cria-se ali um espaço de discussão muito interessante. Penso que a presença da banca da Green Vibe com produtos ecológicos também suscita muita curiosidade e as pessoas acabam por fazer imensas questões e tirar dúvidas.  


Qual achas ser o maior desafio para chamar e alertar cada vez mais pessoas para a necessidade de participarem no mercado de trocas?


É nossa missão mostrar que a segunda mão não tem de ser suja, mal cheirosa, com buracos e é só para quem tem carência financeira. Infelizmente a segunda mão ainda é vista assim em Portugal, mas está a mudar. Assim, tentamos ser o mais rigorosos possível com a entrada das peças no mercado, vemos se tem borbotos, buracos e se está em boas condições para que outra pessoa possa reutilizar. Queremos que as pessoas percebam que basta lavar a roupa que está pronta a ser utilizada. Por acaso não temos grande dificuldade em trazer pessoas para os mercados, seja qual for a razão: é mais económico, é divertido, é amigo do ambiente, os nossos mercados têm sempre boa adesão. 

É um projeto em expansão. Tu como impulsionadora deste projeto que balanço fazes deste primeiro ano?
Tenho mesmo pena que o covid tenha aparecido, senão por esta hora, já teríamos mais Mercados de Trocas a acontecerem por Portugal. Porém temos de trabalhar com o que temos e parece-me que os Mercados de Trocas são um sucesso! Tal como disse acima a adesão é sempre boa, embora a nossa divulgação não seja abrangente. Os voluntários são incansáveis e até já formamos aqui uma família que se encontra todas as semanas num Mercado de Trocas de alguma localidade. Sem eles seria impossível darmos continuidade a este projeto. 


Com a pandemia e o confinamento, não foi possível realizar tantos Mercados de Trocas como gostarias. Agora que vamos regressar qual o próximo passo?


Estamos a terminar o site, onde temos toda a informação reunida, queremos constituir associação, esperamos fazer parcerias com projetos locais e claro, levar os Mercados de Trocas a todo o Portugal ?

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